sexta-feira, 27 de abril de 2007

O Vencedor ...

Operários (Tarsila do Amaral)

Olha lá quem vem do lado oposto
e vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
sãos e salvos de sofrer
Olha lá quem acha que perder
é ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
e perde a glória de chorar
Eu que já não quero
mais ser um vencedor,
levo a vida devagar pra não faltar amor
Olha você e diz que não
vive a esconder o coração
Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
só procura abrigo
mas não deixa ninguém ver
Por que será?
Eu que já não sou assim
muito de ganhar
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz.
(Los Hermanos)

Quem disse que é preciso apenas vencer? ganhar a qualquer custo, mesmo que para isso seja preciso usar de "jogos sujos", mentiras, trapaça ou dar um jeitinho bem brasileiro. Onde está escrito que para ser feliz você precisa se dar bem sempre? quem disse que temos que seguir um padrão de vida, um padrão imposto de como se deve ser? verdadeiros escravos da propaganda ...

Todas as escolhas feitas terão 50% de chances de dar certo, ou 50% de chances de falhar, o risco que temos de correr, e não se martirizar por que não deu. A frustração que todos e tudo (propagandas, tv, tc ..) nos faz sentir quando "falhamos" seria evitada se nos ensinasse que a vida é uma caixa de surpresas e não tentassem camuflar isso, pois vai chegar um dia (mais cedo ou mais tarde) que em um certa situação descobriremos isso.

Debaixo da Ponte



Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; e de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problemas de lixo não tinham, podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo debaixo da ponte. Podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava; nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho: há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados, a calçada um pouco menos propícia, a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os “debaixo da ponte” e trazer-lhes uma grande posta de carne.Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la, é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.Comê-la crua não teria mesmo gosto. Um dos moradores de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto da rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.Debaixo da ponte os três preparam a comida. Debaixo a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há nada melhor, depois de um prazer, do que o complementar do esquecimento)... quando começaram a sentir dores...Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas na ponte.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Debaixo da ponte. In: Obra Completa,
Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967, p. 896-897.